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Entrevista com Philip Yancey

Momento em que entreguei a carta para Janet

Conhecer o escritor e jornalista Philip Yancey pessoalmente foi um sonho realizado. Aos 16 anos, tive o primeiro contato com seus livros; e nunca mais parei de lê-los. Pelo contrário! Por muito tempo, os livros se “transformaram” em amigos e companheiros de caminhada. Mesmo em culturas distintas e distância geográfica, recebi grande influência de seus escritos em várias áreas da minha vida. As ideias que se cruzavam e os questionamentos parecidos foram a ligação particular que tive com ele por longos anos.

Em sua visita ao Brasil no início de setembro para o lançamento mundial do livro Para Que Serve Deus, escrevi uma carta contando da influência que ele teve na minha história. Já me sentia realizada por fazer isso.  Mas, em uma atitude ousada, escrevi também que gostaria de entrevistá-lo, redigi seis perguntas e deixei meu e-mail no final da carta. Enquanto esperava na fila para que ele autografasse meu livro, entreguei a carta para Janet, sua bela e simpática esposa. Bom, se esse post existe é porque ele respondeu (risos!). Sua resposta à minha carta foi algo sublime e repleta de sensibilidade e acessibilidade. Particularmente, foi uma experiência ímpar e cheia de significados eternos.

Agradeço as amigas Anna Paula Haddad, Elaine Alves, Eliane Campos e Paloma Dib que fizeram parte desse momento singular.

Confira a entrevista.

1)  No livro O Deus (in)Visível você compartilha que aprendeu não ser possível calcular a presença ou a ausência de Deus em circunstâncias da vida.  Em outro ponto, destaca que Deus permite que nós determinemos a intensidade de sua presença. Hoje, como e onde você percebe Deus e o ouve de maneira pessoal e comunitária?

Creio que Deus está sempre presente e cabe a mim  “sintonizar-me” com sua presença. Eu começo cada dia orando pelo meu dia, pelos compromissos que tenho, pelos telefonemas que faço, pelas tarefas agendadas e oro para que Deus me dê sua maneira de olhar para essas pessoas e eventos. Como mencionei no livro, eu sempre verifico os “esquecidos” no dia. Então, eu tenho que voltar e fazer uma oração silenciosa a Deus para que eu lembre de me afastar do meu ponto de vista egoísta. Eu também experimento a presença de Deus na beleza: na natureza e especialmente na música clássica. Elas me ajudam a lembrar que o mundo é bom e que Deus é um grande artista. Estranhamente, a comunidade é um dos lugares mais difíceis para eu experimentar a presença de Deus. Deveria ser um dos mais importantes, mas para mim isso não acontece frequentemente. Como um introvertido, a maioria dos meus melhores momentos de comunhão com Deus acontece quando eu estou sozinho.

2) No mesmo livro, você diz que um casamento arranjado poderia servir como um bom modelo do relacionamento com Deus e que sociedades que praticam esse tipo de ajuntamento matrimonial têm uma taxa de divórcio menor do que as que ressaltam o amor romântico. Baseado na crença do amor romântico no Ocidente, como as frustrações nas relações humanas afetam a visão e comunicação com Deus?

Curiosamente, acabei de ler sobre o lado infeliz do casamento arranjado: eles podem levar a uma maior infelicidade e até mesmo a relacionamentos abusivos.  Um estudioso pensa que essa é a razão de a igreja primitiva ter saltado tão ansiosamente a noção do celibato: isso libertaria a pessoa de um potencial perigo de um casamento arranjado por qualquer coisa que não fosse o amor.  Como um ocidental, eu fico intrigado com a visão mais positiva de casamentos arranjados. Como uma jovem indiana me disse: “Você não pode amar alguém o suficiente pra conhecê-lo, mas você pode conhecê-lo o suficiente para amá-lo.” É uma maneira interessante de dizer que “O amor é cego” e muitas vezes disfarçar os problemas potenciais. Por outro lado, se você esta comprometido com uma pessoa e fica com ela, você pode na verdade desenvolver um amor rico e duradouro.

Você esta absolutamente certa, a maioria de nós aprende a amar a Deus primeiramente por amar os outros. No meu caso, o amor romântico foi um dos pontos principais que ajudou a convencer-me que Deus é bom e mostrou-me como o amor de Deus poderia ser. Aqueles vindos de famílias difíceis e abusivas têm muita dificuldade em aprender essa lição.

3) Em um dos seus livros com parceria do Dr. Paul Brand, sobre a analogia do Corpo de Cristo e o corpo humano, você revela que assim como a dor unifica o corpo a perda dela destrói irreversivelmente essa união (como é o caso da lepra). Em sentidos práticos, como a igreja deixou de sentir essa dor? E que dor é essa que a igreja precisa sentir para se unificar?

Nós fazemos isso o tempo todo. Nós passamos por mendigos na rua e desviamos o olhar. Nós cansamos de ouvir sobre mais um desastre no mundo e desligamos a televisão. Ouvimos sobre um cristão conhecido que cai em imoralidade e dizemos pra nos mesmos: “Com razão. Não é de se admirar, bem feito”. Em resumo, nós perdemos a compaixão e a sensibilidade que Deus usa nesse mundo para dispensar graça.

4) “É a realidade do mal que fortalece minha fé no mundo invisível.” Essa é uma frase sua no livro Rumores de Outro Mundo.  Seus livros geralmente têm como mote o sofrimento e a desesperança. Criado em uma igreja racista no sul dos Estados Unidos e sendo um melancólico, qual área de sua vida esses dois temas são mais evidentes e provocaram/provocam seus maiores questionamentos?

Visões humanistas não podem na verdade esclarecer o mal. Estamos continuamente a ouvir que a educação ou que a economia crescente vai resolver os problemas humanos, mas o mal persiste. Eu cresci num ambiente de igreja e apontei o mal dentro da minha igreja: racismo, julgamento, mesquinhez, etc. Mais tarde, tive que confrontar essas mesmas tendências em mim mesmo. Finalmente, eu tive que reconhecer que precisava olhar a partir de uma fonte externa de certo e errado. Bem e mal são simplesmente valores arbitrários sobre os quais concordamos. Eu tive que aceitar que Deus, o criador, tem o direito de definir o bem e o mal, e de fato Deus faz isso para meu próprio benefício. Eu vejo o pecado como uma maneira de Deus impedir que prejudiquemos a nós mesmos, não como nos impedindo de ter um bom momento.

5)  No livro Descobrindo Deus Nos Lugares Mais Inesperados você compartilha uma carta que recebeu de um paquistanês, que vivia nos Estados Unidos, um dia depois do ataque de 11 de setembro.  Ao final da carta, você diz que continuava se correspondendo com o autor e que ele ainda estava dividido entre a crença intelectual e emocional, pois isso causaria ruptura em sua família caso se convertesse ao cristianismo. O que aconteceu com esse paquistanês?

Infelizmente, perdi contato com Mohammed, que me escreveu sobre seu dilema doloroso. Eu presumo que ele retornou ao Paquistão depois de terminar seus estudos e achou muito perigoso escrever sobre questões de fé daquele país restritivo. Eu ainda oro por ele, uma vez que oração não conhece fronteiras.

6)  “Se eu tivesse de definir meu próprio tema, ele seria a história de uma pessoa que absorveu algumas das piores coisas que a igreja tem para oferecer, mas que, ainda assim, descansou nos braços amorosos de Deus”, frase sua em Alma Sobrevivente. Como foi transgredir e trair os ensinamentos da igreja na qual foi criado e descobrir em pessoas que estavam “fora da igreja” o resgate de sua fé pessoal?

Na verdade, eu fui resgatado, principalmente, por pessoas da igreja. Eu encontrei um tipo novo e diferente de cristãos: pessoas como Dr. Paul Brand, Annie Dillard, Robert Coles, e os outros que descrevo em Alma Sobrevivente. Eles me mostraram que eu estava me rebelando não contra Deus, mas contra uma forma bastante tóxica de fé em minha igreja fundamentalista. Gostaria de exortar aos brasileiros, muitos dos quais se encontram em igrejas não saudáveis, a não desistir da busca pela verdadeira fé. Não tome suas impressões de Deus baseado no que você vê na igreja.

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Publicado por em 18/10/2010 em Soltos

 

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O pecado da gula

Por Paloma Dib

Estávamos meu atlético namorado e eu passeando pela (fraca e decadente, desculpe, foi isso que achei) Adventure Sports Fair no último sábado, no Anhembi, quando nos vimos ávidos (por mais feira e) por algo para beber. Expositor que se preze oferece bebidinhas e comidinhas para visitantes (no meu sonho) e, como demoroooou para acharmos esse oásis, ‘nos jogamos’ quando soubemos que no estande da ‘Go Outside’ estavam distribuindo suco. Eufórica (mas disfarçando, claro), entrei na fila de 1 pessoa e vi o mini (mais para micro) copinho de plástico em que serviam o suco. Inevitável, disparei para a moça que servia: “Nossa, que sacanagem esse copinho diante da sede que estou sentindo”… a brincadeira foi bem recebida e a promoter avisou simpática que se eu quisesse era só dizer que ela me daria uma latinha inteira ;-D

Com a boca seca, comecei a tomar o suco, de cor e textura bem parecidas com o suco de caixinha de goiaba, apenas um pouco mais avermelhado. Foi quando percebi que o sabor correspondia mais a uma latinha Salsaretti de molho de tomate tradicional.

“Do que é esse suco?”, questionei.

“É um suco concentrado de tomate com outros 7 vegetais naturais: cenoura, aipo, beterraba, salsa, alface, agrião e espinafre”.

“Ah, entendi”, respondi, fazendo cara de quem estava tentando gostar.

“Inusitado, né… não consigo evitar a sensação de que estou bebendo molho de tomate gelado”, disse.

“É só uma questão de hábito, para as pessoas se acostumarem”, empurrou a promotora.

Meu querido também se esforçava para gostar, e confesso que nunca imaginei que aquele copinho pudesse se tornar tão grande e cheio, estava praticamente transbordando…

Logo um rapaz ao lado ofereceu “Querem levar para casa?”, eu em seguida, apreensiva: “Posso usar como molho de tomate para uma massa?”… “Claro”, respondeu prontamente a simpática jovem.

Desesperado para se livrar de algumas latas, o rapaz nos incentivou a levar mais, o que contabilizou 3 latinhas, para nossas próximas receitas italianas. Só não trouxemos mais para não ficar muito pesado para carregar.

Meu amor e eu saímos de lá rindo sem parar e com mais sede ainda, loucos para tirar aquele gosto de fim de almoço da boca. Que fique claro, o molho era muito bom, só não combinava muito com a ‘roupagem’ de suco gelado.

Meus vegetable juices estão na geladeira, à espera da próxima macarronada.

 
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Publicado por em 27/09/2010 em Soltos

 

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Do Avesso

O avesso é todo desalinhado.

Vire uma peça de roupa do avesso e veja se tem coragem de usar.

Coragem até que possa ter… difícil é encarar a opinião de outrem.

Contrário, hostil.

O lado de fora é oposto do avesso.

Oposto ao quê? O lado de fora é o certo? É o bonito? É o que vale?

Talvez.

Talvez sim, talvez não.

Vire o ser humano do avesso e veja se tem coragem de amar.

Coragem até que possa ter… difícil é encarar a mazela do outro que verá.

Contrário, hostil. Mau.

O lado de fora é oposto do avesso.

Oposto a quem? O lado de fora é o certo? É o bonito? É o que vale?

Depende.

Depende do que vejo do lado de dentro, e o que escondo com o lado de fora.

 
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Publicado por em 30/08/2010 em Devaneios

 

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Ponto final

O ponto final está no começo.

No início das relações humanas, sem resoluções, sempre nos começos e recomeços.

Enquanto estivermos submergidos nesse mar de relações, não conseguiremos colocar os pingos nos ‘is’, nem achar a equação do amor, tão pouco a fórmula da vida feliz.

O acaso vai continuar com suas boas e más surpresas.

Continuaremos a olhar a vida com suas belezas e ainda assim questioná-la sobre seu sentido.

O ponto final no começo da vida diz que algo já está pronto e que não precisa ser editado o que já foi escrito; e que finalizado está.

O ponto final no início nos permite (re)escrever o inacabado, o incontrolável, o imprevisível.

Permite colocar o ponto final da história que ainda escrevo.

 
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Publicado por em 05/08/2010 em Devaneios

 

O Toque Feminino no Café

Conheça a história da mulher que fez da tradição familiar uma fonte de lucro

e tem hoje um café com o próprio nome.

‘Você aceita um café?’, pergunta Maria Helena quando me recepciona em sua casa numa manhã de domingo. ‘Claro, só se for o Café Helena’, respondo imediatamente. No caminho para a cozinha, o papo começa a fluir e em menos de um minuto já é possível sentir o aroma inconfundível da bebida.

Tudo começou com um sonho. E não foi de repente. A vontade de possuir a fazenda que fica em Dourado, centro geográfico do Estado de São Paulo, onde nasceu, cresceu,  namorou e casou, era antigo. Conheceu o namorado, que hoje é marido, na faculdade, e quando ia para a fazenda o namorado não hesitava e falava: “Vamos ver o casarão que será nosso um dia?”. Depois de abandonar uma carreira bem-sucedida em uma empresa, o sonho virou realidade. E a realidade trouxe os desafios congênitos iniciais de todo empreendimento e que não estavam nos planos. Com música ambiente ao fundo na sala de estar de sua casa, Maria Helena Monteiro Alves Bastos conta sua trajetória rumo ao sucesso. Após a entrevista, a empreendedora faz questão de mostrar o café embalado e, mais uma vez, oferece um cafezinho.

Como você adquiriu a fazenda?

A fazenda já era dividida entre os filhos do meu avô. A parte do meu pai era a casa dos colonos. O casarão tinha ficado com meu tio e como ele estava ficando velho, meu marido e eu sonhávamos em comprar o casarão. Desde que éramos namorados, e namoramos sete anos, tínhamos esse sonho. Com algum tempo morando em São Paulo, e depois no Rio de Janeiro, juntamos alguns “tostões”. Primeiro, meu pai resolveu vender a parte dele, depois o tio colocou à venda o “nosso sonho”. Foi quando compramos.

Como foi abandonar uma carreira bem-sucedida em 1999 para se dedicar a um empreendimento?

Quando surgiu essa oportunidade eu estava em transição. Eu tinha outros projetos para a empresa quando tudo aconteceu. O momento foi muito coincidente, e só poderia ser eu mesma. Minhas filhas estavam estudando e meu marido tinha o trabalho fixo, então resolvi ousar. Levei o maior susto e pensei: ‘Quem vai assumir se eu não assumir? Como vou fazer isso?’ Eu não entendia absolutamente nada de agronegócio. Com uma carreira bem-sucedida, eu tinha conquistado um espaço, e o que é interessante no meu projeto é que normalmente a pessoa vem do interior e cresce na cidade grande. Eu fiz isso e voltei para o zero, de onde vim. Essa volta não é comum. Depois de ter sucesso nos negócios, largar a família e voltar para uma cidade pequena do interior, não é fácil.

Quais foram os maiores desafios?

Eu era diretora da empresa em que trabalhava. Tinha carro importado e motorista particular. Ou seja, todo o aparato da posição que exercia. Quando assumi a fazenda as coisas mudaram. Por exemplo, um dia percebi que estava sem a licença do carro. São detalhes do dia-a-dia que, quando você tem uma assessoria grande e está em certo nível, passam despercebidos. Era mais fácil quando só fazia o cheque e agendava com a secretária (risos…). Quando fui para a fazenda, as pessoas tinham um nível de escolaridade menor, ou seja, assessoria zero. Dava problema no computador, e aí? Quando se está em uma grande empresa, a gente não percebe o aparato que precisa e também tem mais tempo para exercer sua função. A pessoa consegue ser mais  produtiva no que é capaz. Quando assumi a fazenda eu era tudo; o boy, a selecionadora e tinha que estudar a parte agronômica. É claro que contratei especialistas, mas era preciso que eu soubesse eles sabiam, e isso não acontece do dia para a noite. Na agricultura, existem muitas determinantes que são incontroláveis. Na empresa você está dentro de um escritório. Se está frio, liga o aquecedor, se está calor, liga o ar-condicionado. Na fazenda, se não chover a lavoura não cresce, daí é preciso irrigar, e isso é um investimento. É um grande desafio liderar um empreendimento agronômico, mas quando a gente sonha e foca, as coisas acontecem.

Você achou que seria fácil?

Como eu conquistei uma carreira em São Paulo e era uma pessoa  competente, tanto eu e meu marido, achamos que seria fácil. Se eu vim para cá e fiz carreira, a volta vai ser mamão com açúcar. Estávamos enganados. Foi mais difícil! Nas empresas você se relaciona com pessoas mais preparadas e com isso é possível cortar uma série de etapas. No interior, eu não tinha ninguém para pedir ajuda. O café já era coisa do passado na região e os produtores só plantavam cana. Então, estava começando a investir em algo  que tinha sido sucesso no passado. A cidade não tinha mais implementos e adubação, pois não era mais um pólo produtor de café. O pessoal que ajudava tinha uma visão do passado, e ninguém acreditava em mim, principalmente meu pai, que está vivo até hoje, com 88 anos. Meu marido era o único que acreditava no meu trabalho. O resultado? Não morri! Estou viva, continuo casada com o mesmo marido e minhas filhas não são desequilibradas. Portanto, é possível você ter sucesso e ir coordenando todos esses pontos. E eu trabalho muito mais hoje do que quando eu era funcionária.

Como é liderar um empreendimento sendo mulher?

As mulheres estão conquistando cada dia mais o seu espaço e temos algumas coisas que contribuem para esse crescimento. Por exemplo, nós cedemos mais, deixamos, muitas vezes, que passem por cima da gente,  mas tem hora que a  puxamos o tapete também. Essa versatilidade e flexibilidade que a mulher tem é muito importante para a gestão dos negócios. Eu sou a favor da parceria homem-mulher, mas eles são machistas. Certa vez, ministrei uma palestra em uma universidade e tinha na plateia cerca de 500 alunos. Um deles me perguntou como uma mulher de sucesso como eu coordeno o marido. É um jovem preocupado com o lado do marido e vejo nessa situação que a questão do machismo ainda não acabou.

Que tipos de conflitos você enfrentou por causa da  constituição familiar na empresa?

No início, meu marido apoiava integralmente e sempre planejamos  juntos. Hoje, ele palpita bem mais do que antes e é um palpite mais ditatorial, tanto pelo sucesso da empresa quanto pela fatia que também é dele. Não tiro o que é dele e acaba acontecendo uma certa disputa. E não acho que seja mau. Mas, o conflito existe sim, sempre vai existir, mas depende de como você maneja o conflito. Tem pessoas que preferem brigar a ceder. Tudo o que a gente faz na vida tem encantos e desencantos. Se você se apega aos encantos, você vai. Mas, se fica nos desencantos, aí não se sai do  lugar. Quando as pessoas chegam ao sucesso elas ficam mais inflexíveis, surge o medo de perder, e é aí que acontece a guerra. A própria família critica e, muitas vezes, o meu sucesso incomoda os outros. Como virei referência familiar, todo mundo fica procurando ver em que área eu erro na minha gestão. Mas eles focam somente o erro. É como se você não pudesse errar. No começo eu vivia aflita, mas parei para pensar: ‘Como não posso errar’?

Quais são as características marcantes e decisivas para o seu sucesso?

Coragem. Se não tiver coragem você não caminha. Vontade de fazer. Não desistir. Levantar, cair e levantar. Temos altos e baixos e sempre surge a vontade de desistir. É a hora de encontrar novos rumos  e levantar. É preciso ser persistente também e saber administrar pessoas. São muitas cabeças diferentes no empreendimento. Eu gosto de usar o exemplo do malabarista de circo que gira os pratos. Um líder ou um  empreendedor é um malabarista de circo. Ele coloca os pratos todos juntos e gira os pratos. Quando o prato está caindo, ele volta e gira novamente. Alguns caem e quebram, mas se todos caírem e quebrarem é porque ele não girou bem. Muitas vezes, a culpa é da liderança. Não podemos deixar os pratos pararem de girar e caírem. A tendência do sucesso para avaliar as pessoas é maximizar os pontos fortes e minimizar os fracos. O líder precisa colocar as pessoas no lugar certo. Às vezes, elas estão no lugar errado e na função errada, e conseqüentemente, vão dar mais trabalho. Isso é administrar pessoas. Gostar do que faz e gostar das pessoas com quem se trabalha é um ponto alto que deixa fardo fica mais leve.

No interior, mulher empreendedora ou líder é mulher brava? Por quê?

(Risos) Demorou para eu entender isso. No passado, o papel da mulher era organizar a casa e cuidar da família. Essa imagem da mulher já mudou muito, mas ela ainda tem raízes, pois o machismo ainda existe. Eu lembro que as pessoas me chamavam de mulher brava, e até hoje me chamam (risos…). Algumas dizem que sou encantadora, mas quando tomo uma decisão ou vou dar uma ordem, sou firme, determinada e  segura, e essa firmeza, muitas vezes, não é agregada à mulher. No interior, eles continuar com a imagem de que toda mulher é sempre meiga e submissa, e quando surge uma figura feminina que lidera homem eles se assustam.

Anita Roddick disse no livro Meu Jeito de Fazer Negócios que “…empreendedores são todos meio loucos. Existe uma linha tênue entre um empreendedor e um louco. O que diferencia um empreendedor de um louco é que o empreendedor faz com que as pessoas acreditem na sua visão.” No livro do Sebrae que conta a sua história, quando ganhou o prêmio Sebrae Mulher Empreendedora, você diz  que “…todos me chamaram de louca e as críticas destrutivas jorravam pelos cantos da cidade.” O que é ser louca?

Todo mundo me chamava de louca e como eu vivia muito sozinha (mas é um sozinha que eu ficava para lá e para cá), tinha momentos que eu pensava que era louca mesmo. Mas eu não podia parar, tinha que continuar, pois não tinha ninguém para fazer por mim. Quando você acredita que é louca dá vontade de parar, ainda mais com as pessoas falando mal da minha gestão. Mas quando você consegue, aí vira referência. Até nas besteiras viram referências. Minha história teve muita emoção e é bom ver o resultado da superação. Eu não tinha noção de que quando eu contava a minha história eu ajudava alguém. Mesmo na correria e loucura, não tenho depressão, menopausa e não tomo hormônio. Não tenho tempo para isso.

O que te provoca mais medo no mundo dos negócios?

O meu grande dilema é que, como eu vendo café puro, as pessoas dizem que é caro. Ele custa um ou dois reais mais caro do que os outros, que muitas vezes vêm com palha e outras substâncias mais. Como pequena produtora, sou massacrada porque  vendo qualidade, e junto vai amor, carinho e também vai essa mulher brava. Mas a gente tem que acreditar que vai conseguir, não sei de que jeito.

*A entrevista foi realizada no dia 14 de setembro de 2008.

 
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Publicado por em 19/07/2010 em Sonho

 

O noivo, o padrasto e a noiva

O noivo já estava no altar. Lindo. Pronto. Ansioso para ver a bela entrar pela porta da igreja e percorrer o longo corredor naquele tapete vermelho cheio de pétalas de rosas brancas. A música tocada pela orquestra aprimora o clima romântico e alimenta a alma dos convidados com a eterna esperança de que serão ‘felizes para sempre’. Tudo no seu devido lugar. Até que o noivo sai do seu posicionamento tradicional (parado, lá na frente, suando e esperando a noiva chegar – nem um pio, nem um passo). Sai em direção à porta, pisando no aveludado tapete vermelho e naquelas frágeis pétalas, e começa a gritar: “Se ele entrar não caso. Se ele entrar vou embora”.

Ele quem, cara pálida? Não é ela? O espanto da platéia é geral com a pergunta estampada nos olhos arregalados: ‘Alguém sabe o que está acontecendo?’ Enfim, tudo sai do lugar. O ambiente angelical se torna angustiante e desconcertante. Tudo culpa do padrasto. Sim, a noiva ia entrar com o padrasto e não com o pai (assunto particular da noiva que desconheço, pulo essa parte). A noiva fazia questão de entrar com ele. O padrasto se sentia honrado em entrar com a noiva. E o noivo já estava indo embora … Não bastasse o noivo sapateando no tapete vermelho, e a noiva chorando em ter que decidir entre dois homens, eis que surge a mãe do noivo. Sai do seu tradicional lugar e vai ao encontro do filho naquele vasto corredor, e diz: “Dá tempo, meu filho. Dá tempo de desistir. Eu te levo pra qualquer lugar que você queira. Vamos? Ainda dá tempo!” Se a noiva ouviu eu não sei, só sei que ela escolheu o filho da futura sogra, e o padrasto teve que se contentar em ficar do lado de fora da igreja.

 
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Publicado por em 13/07/2010 em Amor

 

Nunca subestime uma baixinha

Ela atende pelo apelido de Baixinha. Tem menos de um metro e meio. Aos que querem provocar, chamam de zero quilo. Não sou alta, mas preciso olhar pra baixo pra falar com ela. Seus olhos revelam carência, sofrimento e uma mulher explosiva. Vive de aluguel e, com 48 anos, não tem trabalho com carteira assinada. O único filho, de 14 anos, está desaparecido há dois meses. Ela só sabe que seu filho andava com marginais e não podia mais controlá-lo. “Só” o que sabe.

As palavras surgem de sua boca com esperança ao perguntar-me se conseguiria localizar seu filho através da internet. As palavras saem da minha boca como se estivessem entrelaçadas em um nó, e digo que não.

Mora com um homem que, segundo ela, é um triplex. Uma Baixinha e um Triplex. A mulher irada surge quando provocada. Em um domingo de sol, o Triplex sai pela manhã e disse que retornava na hora do almoço. Chegou às 22h. As explicações eram tudo o que Baixinha não queria. Ele entra na casa. Direciona-se ao quarto e acende a luz. Baixinha diz: “Apague! Quero te bater no escuro mesmo!’ Triplex precisou ficar trancado um bom tempo no banheiro para fugir do porrete que ela tinha separado exclusivamente pra ele. Consegui dar boas gargalhadas com Baixinha em uma tarde de sábado.

 
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Publicado por em 06/07/2010 em Soltos