RSS

Arquivo da tag: Philip Yancey

Entrevista com Philip Yancey

Momento em que entreguei a carta para Janet

Conhecer o escritor e jornalista Philip Yancey pessoalmente foi um sonho realizado. Aos 16 anos, tive o primeiro contato com seus livros; e nunca mais parei de lê-los. Pelo contrário! Por muito tempo, os livros se “transformaram” em amigos e companheiros de caminhada. Mesmo em culturas distintas e distância geográfica, recebi grande influência de seus escritos em várias áreas da minha vida. As ideias que se cruzavam e os questionamentos parecidos foram a ligação particular que tive com ele por longos anos.

Em sua visita ao Brasil no início de setembro para o lançamento mundial do livro Para Que Serve Deus, escrevi uma carta contando da influência que ele teve na minha história. Já me sentia realizada por fazer isso.  Mas, em uma atitude ousada, escrevi também que gostaria de entrevistá-lo, redigi seis perguntas e deixei meu e-mail no final da carta. Enquanto esperava na fila para que ele autografasse meu livro, entreguei a carta para Janet, sua bela e simpática esposa. Bom, se esse post existe é porque ele respondeu (risos!). Sua resposta à minha carta foi algo sublime e repleta de sensibilidade e acessibilidade. Particularmente, foi uma experiência ímpar e cheia de significados eternos.

Agradeço as amigas Anna Paula Haddad, Elaine Alves, Eliane Campos e Paloma Dib que fizeram parte desse momento singular.

Confira a entrevista.

1)  No livro O Deus (in)Visível você compartilha que aprendeu não ser possível calcular a presença ou a ausência de Deus em circunstâncias da vida.  Em outro ponto, destaca que Deus permite que nós determinemos a intensidade de sua presença. Hoje, como e onde você percebe Deus e o ouve de maneira pessoal e comunitária?

Creio que Deus está sempre presente e cabe a mim  “sintonizar-me” com sua presença. Eu começo cada dia orando pelo meu dia, pelos compromissos que tenho, pelos telefonemas que faço, pelas tarefas agendadas e oro para que Deus me dê sua maneira de olhar para essas pessoas e eventos. Como mencionei no livro, eu sempre verifico os “esquecidos” no dia. Então, eu tenho que voltar e fazer uma oração silenciosa a Deus para que eu lembre de me afastar do meu ponto de vista egoísta. Eu também experimento a presença de Deus na beleza: na natureza e especialmente na música clássica. Elas me ajudam a lembrar que o mundo é bom e que Deus é um grande artista. Estranhamente, a comunidade é um dos lugares mais difíceis para eu experimentar a presença de Deus. Deveria ser um dos mais importantes, mas para mim isso não acontece frequentemente. Como um introvertido, a maioria dos meus melhores momentos de comunhão com Deus acontece quando eu estou sozinho.

2) No mesmo livro, você diz que um casamento arranjado poderia servir como um bom modelo do relacionamento com Deus e que sociedades que praticam esse tipo de ajuntamento matrimonial têm uma taxa de divórcio menor do que as que ressaltam o amor romântico. Baseado na crença do amor romântico no Ocidente, como as frustrações nas relações humanas afetam a visão e comunicação com Deus?

Curiosamente, acabei de ler sobre o lado infeliz do casamento arranjado: eles podem levar a uma maior infelicidade e até mesmo a relacionamentos abusivos.  Um estudioso pensa que essa é a razão de a igreja primitiva ter saltado tão ansiosamente a noção do celibato: isso libertaria a pessoa de um potencial perigo de um casamento arranjado por qualquer coisa que não fosse o amor.  Como um ocidental, eu fico intrigado com a visão mais positiva de casamentos arranjados. Como uma jovem indiana me disse: “Você não pode amar alguém o suficiente pra conhecê-lo, mas você pode conhecê-lo o suficiente para amá-lo.” É uma maneira interessante de dizer que “O amor é cego” e muitas vezes disfarçar os problemas potenciais. Por outro lado, se você esta comprometido com uma pessoa e fica com ela, você pode na verdade desenvolver um amor rico e duradouro.

Você esta absolutamente certa, a maioria de nós aprende a amar a Deus primeiramente por amar os outros. No meu caso, o amor romântico foi um dos pontos principais que ajudou a convencer-me que Deus é bom e mostrou-me como o amor de Deus poderia ser. Aqueles vindos de famílias difíceis e abusivas têm muita dificuldade em aprender essa lição.

3) Em um dos seus livros com parceria do Dr. Paul Brand, sobre a analogia do Corpo de Cristo e o corpo humano, você revela que assim como a dor unifica o corpo a perda dela destrói irreversivelmente essa união (como é o caso da lepra). Em sentidos práticos, como a igreja deixou de sentir essa dor? E que dor é essa que a igreja precisa sentir para se unificar?

Nós fazemos isso o tempo todo. Nós passamos por mendigos na rua e desviamos o olhar. Nós cansamos de ouvir sobre mais um desastre no mundo e desligamos a televisão. Ouvimos sobre um cristão conhecido que cai em imoralidade e dizemos pra nos mesmos: “Com razão. Não é de se admirar, bem feito”. Em resumo, nós perdemos a compaixão e a sensibilidade que Deus usa nesse mundo para dispensar graça.

4) “É a realidade do mal que fortalece minha fé no mundo invisível.” Essa é uma frase sua no livro Rumores de Outro Mundo.  Seus livros geralmente têm como mote o sofrimento e a desesperança. Criado em uma igreja racista no sul dos Estados Unidos e sendo um melancólico, qual área de sua vida esses dois temas são mais evidentes e provocaram/provocam seus maiores questionamentos?

Visões humanistas não podem na verdade esclarecer o mal. Estamos continuamente a ouvir que a educação ou que a economia crescente vai resolver os problemas humanos, mas o mal persiste. Eu cresci num ambiente de igreja e apontei o mal dentro da minha igreja: racismo, julgamento, mesquinhez, etc. Mais tarde, tive que confrontar essas mesmas tendências em mim mesmo. Finalmente, eu tive que reconhecer que precisava olhar a partir de uma fonte externa de certo e errado. Bem e mal são simplesmente valores arbitrários sobre os quais concordamos. Eu tive que aceitar que Deus, o criador, tem o direito de definir o bem e o mal, e de fato Deus faz isso para meu próprio benefício. Eu vejo o pecado como uma maneira de Deus impedir que prejudiquemos a nós mesmos, não como nos impedindo de ter um bom momento.

5)  No livro Descobrindo Deus Nos Lugares Mais Inesperados você compartilha uma carta que recebeu de um paquistanês, que vivia nos Estados Unidos, um dia depois do ataque de 11 de setembro.  Ao final da carta, você diz que continuava se correspondendo com o autor e que ele ainda estava dividido entre a crença intelectual e emocional, pois isso causaria ruptura em sua família caso se convertesse ao cristianismo. O que aconteceu com esse paquistanês?

Infelizmente, perdi contato com Mohammed, que me escreveu sobre seu dilema doloroso. Eu presumo que ele retornou ao Paquistão depois de terminar seus estudos e achou muito perigoso escrever sobre questões de fé daquele país restritivo. Eu ainda oro por ele, uma vez que oração não conhece fronteiras.

6)  “Se eu tivesse de definir meu próprio tema, ele seria a história de uma pessoa que absorveu algumas das piores coisas que a igreja tem para oferecer, mas que, ainda assim, descansou nos braços amorosos de Deus”, frase sua em Alma Sobrevivente. Como foi transgredir e trair os ensinamentos da igreja na qual foi criado e descobrir em pessoas que estavam “fora da igreja” o resgate de sua fé pessoal?

Na verdade, eu fui resgatado, principalmente, por pessoas da igreja. Eu encontrei um tipo novo e diferente de cristãos: pessoas como Dr. Paul Brand, Annie Dillard, Robert Coles, e os outros que descrevo em Alma Sobrevivente. Eles me mostraram que eu estava me rebelando não contra Deus, mas contra uma forma bastante tóxica de fé em minha igreja fundamentalista. Gostaria de exortar aos brasileiros, muitos dos quais se encontram em igrejas não saudáveis, a não desistir da busca pela verdadeira fé. Não tome suas impressões de Deus baseado no que você vê na igreja.

Anúncios
 
14 Comentários

Publicado por em 18/10/2010 em Soltos

 

Tags: , , ,